As pessoas precisam de histórias simples para entender o mundo e organizar a vida.





Negócios

Greenfield Partners, NextGear Ventures & Arcadian Capital on the Robot Revolution – Phillip Lord, CEO of Bitcoin Japan, Raz Mangel, General Partner at Greenfield Partners, and Tan Cohen, Partner at NextGear Ventures

Em Paris, investidores ligados à Bitcoin Japan, à Greenfield Partners e à NextGear Ventures conversaram sobre onde vale a pena colocar dinheiro em robôs e em inteligência artificial, cada um olhando para um tipo de negócio: grandes empresas, tecnologias de base e companhias bem no início. Uma dúvida guiou a conversa: se a robótica já teve seu “momento ChatGPT”, aquele instante em que todo mundo se surpreende e passa a usar a novidade no dia a dia. A avaliação foi que o setor vive um renascimento, mas esse espanto popular ainda não chegou, e que os robôs estão muito mais adiantados dentro das fábricas do que dentro das casas. Por isso, a preferência é financiar coisas concretas, com clientes reais e dinheiro entrando. Tan Cohen, da NextGear Ventures, contou que os Estados Unidos reúnem os melhores especialistas em inteligência artificial e o maior volume de recursos, enquanto a Europa se destaca na engenharia, como a Robco, de Munique, que recebeu investimento dele. Cohen prefere apostar nas partes “invisíveis” do robô, como energia e sensores, e não no “cérebro”, já dominado pelos americanos. Ele explica que um robô é a soma de várias tecnologias — cérebro, corpo, energia e coordenação — que ainda não se encaixam bem, e que faltam baterias eficientes; citou a Leadwave, com um sensor a laser barato, e a Vokai, com um chip que detecta gases. Já Raz Mangel, da Greenfield Partners, entra em empresas mais maduras, como a Exodo, que mapeia o subsolo em três dimensões com inteligência artificial e quer crescer nos Estados Unidos; ele gosta das áreas apontadas por Cohen, mas cobra vendas de verdade, principalmente em defesa, setor forte em Israel e em Tel Aviv. Para Mangel, um robô que dobra roupa em casa ainda não é bom negócio e deve levar cerca de dez anos. Cohen concordou que os robôs vão funcionar primeiro em ambientes controlados, como fábricas e lojas, antes de chegarem às ruas e às residências, e alertou que a distância entre a tecnologia e o uso real vem aumentando, também por causa das regras.

Mangel observou que o entusiasmo está saindo do consumidor e indo para a “estrutura” da robótica, ou seja, sensores, dados e peças, um mercado que pode ficar maior que o de programas de computador e até que o da própria inteligência artificial, porque substitui trabalho humano. Cohen avisou que muito dinheiro está indo para o lugar errado e inflando expectativas, e lembrou um estudo de uma consultoria de Londres, divulgado em 24 de junho, que calculou em apenas 4% a contribuição da inteligência artificial para a economia; para ele, o exagero está nos robôs humanoides e nos “cérebros”, que vão virar produto comum. O que quase ninguém financia é a camada que conecta os robôs às fábricas de verdade, como as mãos robóticas, e ele citou a Rivian investindo na mind.ai para criar um ambiente de dados ao vivo que amadurece os robôs, além da Roco, com 99,9% de acerto na automação industrial, e da No Traffic, que cuida da infraestrutura do trânsito, mostrando que a autonomia também vem do ambiente. Nos Estados Unidos falta uma lei nacional para carros sem motorista, e sensores e supervisão ajudam a criar confiança antes das regras. Os dois concordam que só tecnologia não basta: vender, distribuir, integrar fornecedores e acumular dados de uso criam uma vantagem difícil de copiar, e os fundadores precisam de propósito somado a uma habilidade agressiva de captar dinheiro, no estilo de Elon Musk. Para quem investe na bolsa, as opções ainda são poucas, como SpaceX e Tesla, e o setor exige paciência, podendo até estar vivendo uma bolha, embora Cohen acredite que a base construída agora vai sustentar as vencedoras do futuro. Phillip Lord brincou com a ideia de robôs domésticos e de companhia, lembrando a queda de nascimentos na Ásia; Mangel previu que até 2030 empresas venderão trabalho por assinatura feito por robôs, com custo parecido ao de pessoas; e Cohen apontou a confiança como o elo que ainda falta entre humanos e máquinas. Vale ainda a lição de que uma demonstração bonita não prova nada, que habilidades humanas pouco praticadas tendem a se perder e que ter a melhor tecnologia não garante a vitória: quem executa bem, chega até as pessoas e aprende com o uso real é quem constrói uma vantagem duradoura.

Um grupo de investidores se reuniu para conversar sobre robôs e sobre a chamada “inteligência artificial física” — expressão usada por Jensen Huang para falar de máquinas que agem no mundo real, e não apenas de programas de computador. A conclusão mais forte deles foi simples e até desconfortável: boa parte do dinheiro está indo para o lugar errado. O capital corre atrás do que aparece bem em vídeo, como um robô humanoide fazendo acrobacias, e quase nunca financia o trabalho lento e invisível que faz a máquina realmente funcionar dentro de uma empresa. Esse trabalho invisível tem três partes: a confiança de quem vai usar o robô, a integração dele com os sistemas do cliente e os dados gerados pelo uso repetido, que vão melhorando a máquina e criam uma vantagem difícil de copiar. Por isso, os investidores defenderam três perguntas práticas diante de qualquer novidade: quem é o cliente de verdade, esse cliente pagou e esse cliente voltou a usar. Uma demonstração bonita não prova nada; cliente satisfeito e dinheiro de volta provam. Eles também alertaram que tratar o setor como um bloco único é um erro, porque a automação dentro de fábricas já está bem mais madura do que os robôs para o consumidor comum. Um deles comparou os estágios com versões de programas de conversa: a indústria estaria num nível parecido com os modelos mais avançados, enquanto o uso doméstico ainda estaria bem atrás. A diferença não estaria na tecnologia em si, mas no ambiente controlado da fábrica, onde a permissão e a confiança já existem.

Um ponto que chamou atenção foi um relatório de consultoria apresentado em Londres, em 24 de junho, apontando que a inteligência artificial contribui com apenas 0,4% da economia, o produto interno bruto. Esse número, colocado ao lado dos bilhões já investidos, sugere que a maior parte desse dinheiro não volta, e serve como um freio contra o entusiasmo exagerado. Outro obstáculo citado foi a regulação dos carros autônomos nos Estados Unidos, decidida estado por estado, sem uma regra nacional, o que deixa o setor sem previsibilidade. Os investidores compararam o momento com a bolha das empresas de internet dos anos 1990, quando muitos financiaram sites chamativos e o lucro maior acabou ficando com quem construiu cabos, servidores, pagamentos e logística. Ainda assim, reconheceram um limite nessa comparação: programas de computador podiam ser copiados quase de graça, mas robôs dependem de peças físicas, fábricas, baterias e energia, o que torna a recuperação muito mais lenta. Houve discordância aberta entre eles sobre existir ou não um momento de virada na robótica parecido com o sucesso do ChatGPT, e um admitiu que o setor ainda está longe disso em vários aspectos. Ficaram pontos pouco explorados, como o impacto sobre trabalhadores substituídos e sobre o cidadão afetado pela falta de regras claras, além de uma divisão curiosa: a engenharia do “corpo” dos robôs se concentra na Europa e em Israel, enquanto o “cérebro”, os programas, fica nos Estados Unidos. A dúvida final que sobrou é quem vai pagar para construir algo tão decisivo e tão invisível quanto a confiança.


Cultura

New World Jewish Pilgrims ‘Struggle With God’ in the Old City – Ari David Blaff – The Dispatch

Em Jerusalém funciona uma escola religiosa chamada Aish HaTorah, fundada em 1974 pelo rabino Noach Weinberg. A ideia dela é reaproximar do judaísmo ortodoxo pessoas judias que tinham se afastado da religião. O que a diferencia de outro grupo conhecido, o Chabad, é que muitos professores viveram longe da fé antes de voltar, e por isso conversam sem rodeios sobre drogas, sexo e música. Um exemplo é Dov Ber Cohen, hoje rabino e professor no local. Ele cresceu em Londres, numa família judaica pouco religiosa, foi rebelde e mergulhou na música eletrônica e nas festas noturnas. Na faculdade, sentiu um vazio enorme por dentro e foi procurar respostas no pensamento oriental e no budismo, convencido de que a sabedoria verdadeira estava na Ásia. Viajou por lá praticando meditação e artes marciais, mas foi numa parada em Israel, há 18 anos, que encontrou o que buscava: verdade e sentimento de comunidade. Na cidade de Safed, estudou o judaísmo e a cabala, percebeu semelhanças com o budismo, como entre a festa de Hanucá e a ideia de atenção plena, e acabou convencido pelos argumentos de seus mestres. Para ele, a fé de verdade precisa de provas, e não de crença cega.

Histórias parecidas aparecem entre outras pessoas ligadas à escola, como o rabino e surfista Yom Tov Glaser e o jovem Michael Mirskiy, neto de soviéticos que não puderam viver o judaísmo com liberdade. Mirskiy é um americano que vivia sem religião e sonhava em ser narrador esportivo, até que uma viagem barata a Israel mudou tudo: hoje estuda numa escola de estudos religiosos, chamada yeshiva, em Jerusalém, usa as franjas rituais conhecidas como tsitsit e aprende o Talmude, um dos grandes livros do estudo judaico. Ele também deixou para trás o preconceito que tinha na infância contra judeus religiosos e virou a referência de religião da própria família nas festas. Nesse ambiente, Dov Ber Cohen ensina quase como um advogado: pede provas, questiona ideias e separa “quem a pessoa é” de “quem a pessoa está sendo”, olhando os valores que ela realmente pratica no dia a dia. Junto com o estudante Eliyahu Dahan, ele liga esse retorno à religião ao cansaço de muitos jovens com as redes sociais e com uma vida vazia, cheia de telas e bens materiais. Dahan acredita em viver com prazer dentro dos limites religiosos, sem proibições exageradas, e conta que, ao se afastar das telas durante os estudos, melhorou seus hábitos e entendeu que as redes criam uma realidade falsa. A escola mistura modernidade e tradição, com estudos feitos em duplas e debates livres sobre dúvidas religiosas. O próprio Cohen admite ter perguntas sem resposta e ensina que conviver com esse incômodo, reconhecendo os próprios limites e continuando a buscar, faz parte essencial da fé.

Em Jerusalém existe uma escola religiosa judaica chamada Aish HaTorah, criada a partir das ideias do rabino Noach Weinberg, que recebe jovens judeus sem qualquer ligação com a religião. Muitos chegam cansados da vida voltada só para consumo, dinheiro e redes sociais, procurando algum sentido maior. Lá, a pergunta principal não é em que a pessoa acredita, e sim se ela vive de acordo com aquilo que diz valorizar. A ideia é simples: o que alguém realmente valoriza aparece no tempo que gasta e nas escolhas que faz, não nas palavras que usa. Um exemplo marcante é o de Dov Ber Cohen, que antes de virar rabino foi monge budista e viajou pela Ásia, passando pelo Himalaia e pela Tailândia atrás de sabedoria, até perceber que buscava algo ligado à própria tradição familiar. Pessoas como ele funcionam como uma espécie de ponte: já viveram o vazio do outro lado e, por isso, conseguem conversar com quem está chegando sem parecer distantes ou desinformadas.

A mudança dessas pessoas quase nunca acontece de repente. Ela vem devagar, com muitas conversas e discussões em que os argumentos antigos vão perdendo força, uma pequena derrota de cada vez, somadas ao afastamento das telas, que abre espaço para leitura, estudo dos textos antigos, como a Torá, e atenção mais longa. Esse mesmo mecanismo aparece em outros lugares, como nos grupos de recuperação de dependentes químicos, em que quem mais convence não é o médico, e sim o ex-usuário que já passou pela mesma situação.


A 5-Step Framework for Getting to Know Yourself – Dr. Ari Grubner – Aish

No Yom Kippur, que é a data mais importante do calendário judaico, muitas pessoas buscam fazer a teshuvá: olhar para si mesmas com sinceridade e corrigir o que não está bom. Ari Grubner explica que essa hora traz uma dificuldade bem comum: quando alguém percebe muitas falhas ao mesmo tempo, fica sem saber por onde começar. Para facilitar, ele propõe um caminho dividido em etapas simples. A primeira é escolher um ponto de partida concreto, como recordar como foi um dia comum, imaginar que tipo de pessoa se quer ser no futuro ou fazer uma lista dos papéis que se ocupa na vida, como filho, amigo ou colega de trabalho. A segunda é escrever as falhas sem se julgar, incluindo as pequenas e até aquelas que dão vergonha, apenas notando o que se repete. A terceira etapa é a mais importante: perguntar “por quê” cada falha acontece, porque entender a causa real é o que de fato permite mudar. Repetir essa pergunta várias vezes costuma revelar motivos escondidos atrás de hábitos simples, como chegar sempre atrasado ou perder a paciência com facilidade. Problemas que parecem diferentes muitas vezes vêm da mesma raiz, como medo, insegurança ou prioridades mal escolhidas. Encarar isso exige coragem, mas a intenção não é se condenar, e sim sentir o alívio de finalmente compreender por que certas coisas se repetem.

Depois vem a quarta etapa: escolher uma única mudança, pequena e bem clara, sem promessas vagas, e deixá-la anotada por escrito para poder conferir depois. A quinta etapa é essa conferência, feita algum tempo mais tarde: se a mudança funcionou, a pessoa segue adiante com um novo passo; se não funcionou, procura entender o que atrapalhou. Desse modo, o esforço não fica preso a um único dia, e vira um registro que acompanha a pessoa ao longo do tempo, ajudando-a a se conhecer cada vez melhor. A ideia central é que compreender o próprio problema é o primeiro passo para transformá-lo. Sem entender o que realmente acontece consigo mesma, a pessoa fica presa, repetindo as mesmas atitudes sem saber por quê. Quando essa compreensão aparece, nasce também a chance de agir de outra forma. Por isso, o crescimento pessoal verdadeiro não se parece com aquela lista de defeitos que muita gente faz uma vez por ano, geralmente na virada do ano. Ele é um cuidado constante, do dia a dia, uma busca contínua por entender quem se é de verdade, e é justamente essa atenção diária que faz alguém evoluir aos poucos, de maneira sincera e duradoura.

Todo ano, perto do Yom Kippur, o dia mais importante do calendário judaico, muita gente costuma sentar e fazer uma lista enorme dos próprios defeitos: impaciência, inveja, falar demais, esquecer de ligar para a mãe. A proposta aqui é bem diferente e vem de um método de cinco passos criado por Ari Grubner para praticar a teshuvá, que é o arrependimento e a correção de rumo ensinados na tradição judaica e na Torá. Em vez de colecionar quinze falhas soltas, a pessoa pega um comportamento e pergunta “por que eu faço isso?” várias vezes seguidas, sem pressa e sem correr para um rótulo fácil. Fazendo isso, ela percebe algo curioso: defeitos que pareciam não ter nenhuma ligação costumam aparecer sempre juntos, nas mesmas combinações, ano após ano. Isso é sinal de que existe uma causa só embaixo de todos eles. É como uma casa em que três lâmpadas piscam ao mesmo tempo: o problema não são as lâmpadas, é um fio único com defeito. A mesma lógica aparece em outras áreas, como quando um médico junta sintomas distantes para descobrir uma única doença, ou quando um técnico procura a falha real de uma máquina em vez de remendar cada erro separado.

Depois de encontrar essa raiz, o passo seguinte é escolher uma mudança concreta, apenas uma, e marcar datas no calendário para voltar e conferir se ela realmente aconteceu. Parece pouco, mas é justamente aí que está a dificuldade: uma promessa pode ser verificada, enquanto quinze promessas viram apenas boas intenções que nunca vencem. Dois erros costumam atrapalhar: parar na primeira explicação confortável e tratá-la como se fosse a causa verdadeira, ou escolher uma meta grande demais e abandonar tudo no meio do caminho. Existe ainda um limite honesto nesse processo: quem julga se a causa está certa é a mesma pessoa que inventou essa causa, e a mente humana é muito boa em criar histórias bonitas e falsas sobre si mesma. Por isso, um olhar de fora — um amigo, um orientador, um terapeuta — pode ajudar a furar essa versão confortável, assim como vale lembrar que nem tudo vem de dentro: cansaço, dinheiro, ambiente e relações ruins também pesam. No fim, crescer não é um ritual de culpa uma vez por ano, e sim um esforço contínuo de se entender, revisado com o tempo. Só depois de compreender de verdade o problema é que surge a chance real de mudá-lo.


Everything You Learned in Hebrew School About the High Holidays Is Wrong – Rabbi Dov Ber Cohen – Aish

O rabino Dov Ber Cohen ensina que as duas datas mais importantes do calendário judaico, o Rosh Hashaná e o Yom Kipur, deveriam ser vividas com alegria e inspiração, nunca como um peso ou uma obrigação. Quando se fala do chamado “Livro da Vida”, ele explica que a questão não é apenas continuar respirando, mas viver com propósito, em vez de passar os dias só apagando incêndios. Ele não acredita em um Deus sentado com uma caneta decidindo o destino de cada um; para ele, a Torá coloca a escolha nas mãos da própria pessoa, e são os atos de bondade que escrevem o nome dela, sempre com a possibilidade de reescrever tudo, como se o instrumento fosse um lápis com borracha. Ainda assim, ele entende que certas quantidades, como o dinheiro que alguém vai receber, são definidas nessa data, e compara isso com a chuva: o volume já está decidido, mas onde ela cai e o quanto é aproveitada depende das atitudes de cada um. Sobre a oração, ele diz que ela pode mudar circunstâncias, embora nem sempre traga a cura desejada, porque existe uma ordem maior que ninguém controla, e nada do que se reza se perde, mesmo que o benefício chegue a outra pessoa. Ele conta que seu filho nasceu prematuro e se recuperou enquanto toda a comunidade rezava, e também que seu pai morreu apesar das orações constantes. Para ele, o verdadeiro dia de julgamento é o Rosh Hashaná, quando cada um julga a si mesmo, verificando se tem bons valores e se vive de acordo com eles. Essa data, segundo ele, celebra a criação do ser humano como uma parceria com Deus e oferece a chance anual de recomeçar, escolhendo entre a voz do desejo e a voz da disciplina, já que liberdade de verdade seria ter um propósito e caminhar com disciplina até ele, e não apenas seguir impulsos.

Já o Yom Kipur ele apresenta como o dia mais feliz do ano, porque perdão e expiação significam refazer uma ligação que ficou abalada, como acontece entre marido e mulher: o erro cria um obstáculo, e o dia serve para retirá-lo. O jejum e as roupas brancas representam essa página limpa, sem culpa sobrando. Ele lembra que, no judaísmo, ninguém é obrigado a perdoar quem não se arrependeu de verdade e não mudou, pois o perdão exige que quem causou o dano reconheça sinceramente o erro. Para ilustrar, ele fala de uma mulher na Nicarágua que não precisava perdoar o ex-companheiro abusivo, mas precisava “esquecer”, ou seja, parar de reviver a dor todos os dias para conseguir se libertar, invertendo o ditado popular de perdoar sem esquecer. O perdão mais difícil, diz ele, é o que a pessoa dá a si mesma, porque quem errou no passado já não é a mesma de hoje; a culpa deveria virar orgulho pelo crescimento, e sentir remorso, algo diferente de se castigar, é sinal de evolução. O equilíbrio estaria em sentir a dor do erro sem deixar de se enxergar como alguém bom por dentro. Ele destaca que nada no judaísmo é ritual vazio: o mel usado no Ano-Novo judaico, e não o açúcar, ensina que a doçura verdadeira nasce de enfrentar dificuldades, representadas pelas abelhas. Isso se conecta ao Chanucá, pois mesmo dentro de uma dor profunda existe um centro puro e intocado, a alma, e curar-se é voltar a esse lugar em vez de se identificar com a ferida. O shofar, o chifre tocado nessas festas, devolve o sopro divino da alma e desperta quem vive no piloto automático. Ele usa a história de um leão criado entre ovelhas para mostrar como as pessoas esquecem sua verdadeira natureza, e cita crianças judias escondidas durante a guerra que reagiam por instinto ao ouvir a oração do Shemá, sinal de que a identidade essencial permanece viva. Tocar o shofar a cada ano seria, então, um ensaio da paz final, destinada a toda a humanidade e não apenas ao povo judeu.

Uma conversa sobre o significado mais profundo das grandes festas judaicas, o Rosh Hashaná (o Ano-Novo judaico) e o Yom Kipur (o dia do perdão), mostra que esses dias não funcionam como uma promessa de virar outra pessoa, e sim como um despertador. A ideia central é que rituais são gatilhos: um som, um sabor, uma data ou um jejum servem para acordar uma identidade que continua viva dentro da pessoa, apenas adormecida. Por isso o som do chifre de carneiro, o shofar, explicado pelo filósofo judeu Maimônides, não é entendido como superstição, e sim como um aviso marcado no calendário para a pessoa lembrar quem ela é. Textos como a Torá, o Talmude e leituras da tradição mística (a cabala) são usados nessa interpretação. A maçã com mel, por exemplo, não é só um costume de mesa: lembra que a doçura que vale a pena quase sempre nasce de algo que foi superado, e não de tudo dar certo sem esforço. O “Livro da Vida” também é lido como símbolo, não como uma lista de quem morre, já que pessoas consideradas boas morrem de qualquer forma. Liberdade, nesse olhar, é conhecer o próprio propósito e ter teimosia e disciplina para caminhar até ele. E o arrependimento verdadeiro não começa em “eu sou ruim”, mas em reconhecer que a pessoa é boa, inteira e capaz de amar, e que às vezes apenas se decepciona consigo mesma.

O exemplo mais forte dessa ideia são crianças judias escondidas durante o Holocausto e criadas como católicas: dentro de capelas de outra religião, elas cobriam os olhos exatamente no momento da oração Shemá, sem saber o motivo e sem ninguém ter ensinado. Isso sugere que a identidade não é apagada, apenas dorme e responde a um estímulo certo, como um filhote de leão criado entre ovelhas que basta ouvir um rugido ou se ver refletido na água para acordar. O mesmo padrão aparece longe da religião: mudanças baseadas só em comportamento morrem rápido, tanto que cerca de 92% das promessas de ano-novo não passam de duas semanas, enquanto mudanças de identidade, do tipo “eu não sou alguém que bebe”, se sustentam. Aparece também na ideia de que a quantidade é decidida antes, mas o destino depende de escolhas contínuas, como a chuva que pode cair no campo ou no mar, ou como um orçamento público cujo valor é fixado e depois vai para um lugar ou outro. Sobre o perdão, a tradição não obriga ninguém a perdoar quem não mudou; ela propõe algo mais útil, que é soltar o poder que a lembrança da dor ainda exerce sobre a pessoa ferida. Há, porém, dois riscos apontados com honestidade: criar uma explicação bonita para qualquer resultado ruim, de modo que nenhum fato consiga contrariá-la, e usar a frase “eu já não sou mais aquela pessoa” como desculpa para não reparar o dano causado a alguém que ainda espera reparação real. Como prática diária, sugere-se trocar a pergunta “o que eu preciso fazer” por “quem eu estou sendo agora”, reunir a atenção espalhada entre saúde, carreira e relações em um único propósito, e revisitar de vez em quando as lembranças que ainda mandam na própria vida, só para testar se ainda mandam.


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