Viktor Frankl, o psiquiatra vienense nascido em 1905, desde criança não engolia a ideia de que a vida humana fosse só um arranjo de instintos e biologia. Aos doze anos já enfrentava um professor com a pergunta que carregaria a vida toda: se tudo se explica pela química do corpo, de onde viria o sentido? Foi essa teimosia que o levou a trocar cartas com Freud e a se aproximar de Adler, dois gigantes da psicologia da época, para no fim discordar dos dois. Para Frankl, o ser humano não é movido por prazer nem por poder, mas pela busca de um significado — uma tese que hoje soa quase como clichê de autoajuda, mas que era ousada e solitária no momento em que ele a formulou.
O ponto de virada da história dele está num episódio pequeno, quase banal. Com um visto nas mãos para escapar da guerra, Frankl travou diante de uma pergunta simples: que sentido teria sobreviver sozinho, deixando para trás os pais velhos, a irmã, os pacientes? A resposta veio de um pedaço de mármore caído no chão de uma sinagoga em Viena, com letras hebraicas que um senhor traduziu como o quinto mandamento, honrar pai e mãe. Frankl devolveu o visto e ficou. Não foi um cálculo de segurança que decidiu o rumo, mas um significado.
Daí em diante a ideia se sustenta sozinha, sem precisar do horror dos campos para soar verdadeira, embora tenha sido lá que ele a testou. Frankl reparou que os que resistiam melhor não eram os mais fortes nem os mais bem posicionados, mas os que guardavam uma razão invisível para continuar. O que mantém uma pessoa de pé não é a ausência de sofrimento, e sim a presença de um significado. As circunstâncias podem impor a dor, jamais o sentido que se dá a ela — decidir a própria atitude diante do que fere é a única coisa que ninguém consegue arrancar de alguém. No fim, o que acontece com uma pessoa não a define; o que a define é a forma como ela se relaciona com o que acontece.
