Política
WILL TAIWAN JUST GIVE UP? – The Atlantic
Xi Jinping, o líder da China, trata a ideia de colocar Taiwan sob o comando de Pequim como uma missão pessoal, e para isso combina duas táticas: pressão forte e gestos simpáticos, como oferecer uma cadeira mais baixa a Donald Trump num encontro ou receber com um almoço caloroso políticos do Partido Nacionalista taiwanês. Por trás da gentileza existe um plano militar real, que envolveria ataques por computador, mísseis e drones antes de levar tropas pelo mar, algo já sugerido até em vídeos de propaganda feitos com inteligência artificial. Taiwan tem mais de 200 mil militares e provavelmente aguentaria algumas semanas, mas precisaria de ajuda dos Estados Unidos e de aliados, que a poderosa marinha chinesa tentaria barrar no estreito entre a ilha e o continente, caminho essencial para o comércio mundial. Simulações de guerra do centro de estudos CSIS apontam dezenas de milhares de mortes, forte estrago na economia global e indicam que a ilha só escaparia da derrota resistindo com força e contando com uma entrada rápida dos americanos. Como a China treina para isso há décadas, muitos taiwaneses duvidam que os Estados Unidos apareceriam, ainda mais com Trump, que trata a venda de armas quase como moeda de troca e prefere acordos com Pequim sobre comércio, inteligência artificial e armamentos. Assim, pesa menos o discurso da liberdade e mais o cálculo militar e o fato de a ilha fabricar mais de 90% dos chips mais avançados do mundo. Essa desconfiança é antiga: depois de 1949, quando os nacionalistas chineses derrotados se refugiaram em Taiwan, Washington tratou por décadas o governo da ilha como o representante de toda a China, o que mudou entre 1971 e 1972, com a saída de Taiwan das Nações Unidas e a visita do presidente Nixon a Pequim, e virou reconhecimento do governo chinês em 1979, junto com uma posição de propósito vaga sobre defender ou não a ilha. Em 1995 e 1996, a China disparou mísseis por causa de uma visita do presidente taiwanês aos Estados Unidos, o presidente Clinton mandou porta-aviões e Pequim recuou, humilhação que a levou a investir pesado em submarinos e mísseis.
Depois disso, os americanos passaram a sugerir que Taiwan virasse um “porco-espinho”, apostando em armas leves, drones e defesa antiaérea em vez de equipamentos caros, ideia aceita em Taipé só uns dez anos mais tarde. O problema é que a China domina a produção mundial de drones, com uma empresa de Shenzhen ficando com cerca de 70% do mercado, e Taiwan proíbe tecnologia chinesa na defesa, o que atrasou seu próprio programa, começado apenas em 2022 e conduzido por empresas pequenas como a Thunder Tiger, que também faz brocas de dentista, muito longe da meta de 200 mil drones. Cerca de 500 militares americanos treinam as forças locais, e especialistas como Mark Montgomery querem dobrar esse número, enquanto o governo de Lai pede mais apoio dos Estados Unidos e o Partido Nacionalista, liderado por Cheng Li-wun, segura gastos com defesa e conversa com Xi Jinping sobre uma reconciliação pacífica, dizendo que resistir seria inútil e que a ideia de independência deveria ser deixada de lado. O apoio americano ficou mais frágil: Joe Biden repetia que defenderia a ilha, Trump evita essa promessa, levou bilionários e não especialistas em sua viagem à China e, embora tenha aprovado mais vendas de armas que Biden, cerca de 11 bilhões de dólares contra 8 bilhões, as entregas atrasam porque as fábricas estão lotadas e os próprios Estados Unidos querem repor estoques, com Pequim pressionando para reduzir tudo isso. Dentro de Taiwan o debate é tenso: pelo Partido Nacionalista, Richard Chen afirma que a ilha não resistiria nem com ajuda externa, prefere planos de evacuação e proteção da população, questiona comparações com a Ucrânia por causa da geografia e do transporte e duvida de barcos sem tripulação que dependem da internet por satélite Starlink, de Elon Musk. Esse pessimismo faz muitos jovens fugirem do serviço militar obrigatório, enquanto parlamentares como Puma Shen tentam resgatar a confiança nas Forças Armadas usando a história de Davi contra Golias. Dinheiro não falta, já que a ilha tem cerca de 600 bilhões de dólares em reservas; o que travou a modernização foi a briga política, e o orçamento aprovado priorizou comprar armas americanas em vez de financiar drones locais, exatamente o que interessa a Pequim. No mesmo clima, Cheng Li-wun voltou da China com dez propostas de incentivos e chamou Xi Jinping de confiável, sem falar de Hong Kong nem de anexação, enquanto Lai enfrenta obstáculos até para viajar. Kinmen, ilha taiwanesa quase encostada no litoral chinês e palco de uma batalha sangrenta, mostra esse movimento: antes fortaleza militar, hoje está cheia de museus, turistas chineses, ofertas de investimento e até a ideia de uma ponte até o continente. É um lembrete de que a gentileza pode ser estratégia, que a desconfiança entre aliados enfraquece um lado antes de qualquer tiro e que, contra um rival muito maior, vale mais mudar o tipo de força construída do que tentar competir em tamanho.
Taiwan é uma ilha que vive sob pressão constante da China, que a considera parte de seu território e quer trazê-la de volta ao seu controle. Durante décadas, a segurança taiwanesa se apoiou na ideia de que os Estados Unidos viriam em seu socorro caso houvesse um ataque, uma expectativa nascida de uma lei aprovada pelo Congresso americano em 1979, conhecida como Lei de Relações com Taiwan. O problema é que esse compromisso nunca foi totalmente claro, e falas amigáveis de Donald Trump em relação a Xi Jinping aumentaram a desconfiança dos taiwaneses. Daí nasce um ciclo perverso: muita gente em Taiwan hesita em se preparar para lutar porque duvida que a ajuda chegue, e os aliados hesitam em prometer ajuda porque duvidam que os taiwaneses realmente lutem. Ou seja, a defesa de um país não é feita só de armas, navios e mísseis; ela é feita, principalmente, da crença compartilhada de que alguém aparecerá quando for chamado. E essa crença precisa ser cuidada todos os dias, com entregas de armamento no prazo, treinamento de verdade e declarações firmes e repetidas, e não com promessas vagas. Especialistas como Lee Hsi-min, criador da ideia de uma defesa do tipo “porco-espinho” (muitas armas pequenas, baratas e difíceis de destruir), Matt Pottinger, autor do livro The Boiling Moat, e estudos de guerra simulada feitos pelo centro de pesquisa americano CSIS discutem exatamente como transformar essa confiança em capacidade real.
O ponto mais surpreendente é que a perda pode acontecer sem nenhum tiro. A China combina ameaça militar com gentilezas: benefícios econômicos, facilidades, intercâmbios e uma imagem de modernidade, apostando que sair sorrindo custa menos que sair atirando. Ao mesmo tempo, dentro de Taiwan, decisões importantes travam: o orçamento de defesa fica preso em brigas entre partidos, o serviço militar tem brechas e isenções fraudulentas, a produção de drones é pequena demais (a empresa mais bem-sucedida do setor fabrica brocas de dentista e brinquedos) e antigas fortificações em Kinmen, na linha de frente com o continente, enferrujam e viram passeio turístico com balsa, guia e imã de geladeira. Enquanto isso, um político ligado a Pequim usa uma entrega de chá com bolinhas feita por drone como prova de que a China é confiável, embora seja a mesma tecnologia que ela nega quando o assunto é defender a ilha. Essa paralisia interna faz de graça o trabalho que o adversário não precisa fazer, e o cenário lembra a Tchecoslováquia abandonada pelos aliados em 1938 ou a Finlândia, que na Guerra Fria trocou parte de sua liberdade por sobrevivência. A diferença é que Taiwan é uma ilha, o que torna qualquer invasão muito mais difícil, e fabrica os chips que movem a economia mundial, uma vantagem enorme. Fica então a pergunta que vale para países, empresas e até relações pessoais: quanto de qualquer proteção é feito de aço, e quanto é feito apenas da confiança de que alguém atenderia o telefone?
Negócios
Must high bond yields crack stocks? – Robert Armstrong – Financial Times
O preço do petróleo ultrapassou 100 dólares por barril, e isso ajudou a empurrar para cima os juros pagos pelos títulos da dívida do governo dos Estados Unidos, mesmo depois de Bessent anunciar a recompra de 6 bilhões de dólares desses papéis. Os títulos de 10 anos chegaram a render 4,85% ao ano, muito perto dos simbólicos 5%, o que fez muita gente duvidar que a alta das bolsas continue. Analistas como Lerner e Sharma lembram que juros altos costumam aparecer pouco antes do estouro de bolhas, ou seja, momentos em que os preços sobem muito além do razoável, e veem risco maior nas ações ligadas à inteligência artificial. Já Beamish e Oneglia, da casa de análise TS Lombard, acham insustentável a mistura de ações caríssimas com juros elevados, embora ninguém saiba dizer exatamente como esse estrago se espalharia. Em geral, juros altos machucam as bolsas por quatro caminhos: o empréstimo fica mais caro e reduz o lucro das empresas; o dinheiro que a empresa promete ganhar no futuro vale menos hoje; os títulos do governo, pagando bem, viram concorrentes das ações; e cortes de gastos públicos diminuem o faturamento das companhias.
O caminho mais comum passa pelo setor de imóveis, já que financiamento caro esfria construção, reforma e todo o consumo ligado a isso. Nos Estados Unidos esse mercado anda fraco, mas a economia segue firme por causa do dinheiro enorme gasto em centros de processamento de dados para inteligência artificial: cerca de 85 bilhões de dólares previstos para 2026, contra 45 bilhões dois anos antes. Esse gasto, porém, não dura para sempre, e quando ele parar de crescer e os investidores cobrarem resultados concretos, os juros altos voltarão a pesar. Empresas do setor com menos dinheiro em caixa, como a Oracle, já sentem essa pressão. Mesmo assim, as ações não seguem automaticamente a matemática dos juros, porque dependem muito do humor de quem investe. Uma comparação bastante usada, conhecida como modelo do Fed, sugere que as ações estão caras diante do que pagam os títulos de 10 anos, só que o dinheiro não está saindo das bolsas para esses papéis. Um corte repentino e forte nos gastos públicos, cujo rombo chega a 2 trilhões de dólares frente a 4,3 trilhões de lucros das empresas, derrubaria os mercados, mas nada indica que isso ocorra agora. No fim, o sentimento vem antes das contas: enquanto reina o otimismo, números preocupantes são ignorados, e a queda só chega quando muita gente decide, ao mesmo tempo, olhar para eles. Historicamente, as grandes bolhas só se desfizeram quando ficou bem mais caro pegar dinheiro emprestado, com uma exceção curiosa: quando uma empresa sente que precisa investir para sobreviver, o medo de ficar para trás fala mais alto que o custo do empréstimo, até alguém perguntar quanto aquele investimento realmente está rendendo.
Muita gente quer saber se os juros altos dos títulos do governo dos Estados Unidos vão derrubar a bolsa de valores. A conta que liga juros mais altos a ações mais baratas já é conhecida por todo mundo há meses, e ninguém descobriu nada de novo nela. Por isso o preço das ações não cai porque a matemática mudou, e sim no dia em que muitos investidores decidem, quase ao mesmo tempo, olhar para aquela conta e agir. É como um júri: as provas estão na mesa desde o começo, mas a condenação só vem quando o júri está de mau humor. Vale notar também que as grandes bolhas do passado, como em 1929, 2000 e 2008, só estouraram quando ficou realmente caro pegar dinheiro emprestado para as empresas que estavam no centro da festa. O juro alto, por si só, não faz nada. Ele precisa de um caminho concreto para chegar até quem está gastando.
Durante décadas, esse caminho era o setor de imóveis, ideia defendida pelo economista Edward Leamer: financiamento mais caro, obras paradas, economia freada. Hoje o motor mudou de endereço. Quem puxa os investimentos são os centros de dados de inteligência artificial das gigantes de tecnologia, e essas empresas pagam com o próprio dinheiro em caixa, não com empréstimos. Sem dívida, o encarecimento do crédito simplesmente não chega até elas, e a pergunta que fazem não é quanto custa o dinheiro, mas quanto custaria ficar fora do jogo em três anos. Robert Armstrong desenvolveu esse raciocínio apoiado em estudos de Ruchir Sharma sobre ciclos e bolhas e em análises de bancos como Barclays, UBS e da consultoria TS Lombard, e admite com honestidade que não sabe qual seria o mecanismo exato da queda, concluindo que o humor coletivo vem antes das contas. Ficam duas questões em aberto e muito importantes: quem realmente molda esse humor dos investidores, e o que acontece quando essas empresas de tecnologia precisarem começar a se financiar com dívida, porque nesse momento o caminho dos juros se reabre e a matemática volta a mandar. Também vale desconfiar de números redondos, como os 5% repetidos por analistas, tratados como pontos de virada mágicos sem nenhuma explicação de causa.
Tensions in the Black Sea and regional droughts spark rising global wheat prices – IFPRI
O preço do trigo voltou a subir por causa de vários problemas acontecendo juntos. A falta de chuva em regiões que plantam o cereal reduziu a quantidade colhida, e o transporte por navios no Mar Negro ficou muito difícil. Ataques russos a Odessa e ataques ucranianos no Mar de Azov diminuíram bastante o número de embarcações que saem com trigo da Rússia e da Ucrânia, o que encareceu o frete e cortou os volumes levados em mais de 40%. Esses dois países juntos respondem por 32% do trigo do mundo, então qualquer travamento ali afeta o planeta inteiro e também ameaça o milho, o óleo de girassol e os fertilizantes russos. Existem caminhos alternativos, como estradas, rios e portos do Báltico e do Ártico, mas são caros, levam pouca carga e geram brigas políticas com países vizinhos da União Europeia, porque derrubam os preços locais. O resultado é que o trigo ficou quase 25% mais caro desde janeiro de 2026, o valor mais alto em dois anos, e quem mais sofre são os países que dependem de comprar comida de fora. Joseph Glauber, do IFPRI (Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares), estudou esses choques junto com Johan Swinnen e nota que os preços seguem subindo e podem acelerar se os navios continuarem impedidos.
A situação de agora é diferente da de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia causou um salto repentino nos preços, que depois caíram ao longo de quatro anos. Hoje não há um único culpado, mas vários ao mesmo tempo: guerra, seca, fertilizantes caros e ataques às rotas marítimas. Em 2026, ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz encareceram energia e fertilizantes, com pouco efeito imediato nos grãos, mas deixaram o mercado nervoso. As colheitas caíram nos Estados Unidos, no Canadá, na União Europeia e na Austrália por causa de seca, calor e custos altos, com queda de cerca de 11% na produção dos grandes exportadores e de quase 7% nas vendas para fora, sendo a redução norte-americana de 26%. O fenômeno climático El Niño ainda pode reduzir a produção no Hemisfério Sul, e as reservas mundiais de trigo devem encolher de cerca de 32 para 26 dias de consumo entre as safras de 2025/26 e 2026/27, um dos menores níveis em vinte anos. Quando muitos problemas se juntam, cada um deles fecha uma saída que poderia resolver a situação: se falta chuva em um lugar, buscar o produto em outro seria a solução, mas isso não funciona se houver conflito ou transporte travado. Por isso o efeito final é maior que a soma das dificuldades, a oferta fica mais apertada e prever os preços se torna muito mais complicado, fazendo com que cada crise seja diferente da anterior.
O preço do trigo no mundo subiu e ficou mais instável, e a explicação não cabe em um culpado só. Vários problemas de tamanho médio aconteceram ao mesmo tempo: secas em algumas regiões diminuíram as colheitas, ataques a portos do Mar Negro atrapalharam o embarque dos grãos e tensões no Golfo Pérsico deixaram o transporte marítimo mais arriscado. O economista agrícola Joseph Glauber, do Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI), percebeu algo curioso: o fechamento do Estreito de Ormuz, que parecia o grande acontecimento, mexeu pouco com o trigo, enquanto as secas somadas aos problemas no Mar Negro é que empurraram os preços para cima. Outro detalhe passou despercebido por muita gente: o movimento de navios no Estreito de Bósforo parecia normal, mas o total de trigo enviado pelo Mar Negro caiu mais de 40% no ano, porque parte da carga passou a sair por caminhão, trem e pelo rio Danúbio, caminhos mais caros. Ao mesmo tempo, quase todos os grandes vendedores de trigo — Estados Unidos, Canadá, União Europeia, Austrália e Argentina — colheram menos, cada um por um motivo “diferente”.
A lição principal é simples de imaginar: um prédio com várias saídas de emergência parece seguro, mas se pequenos incêndios bloquearem todas as portas ao mesmo tempo, o problema deixa de ser o fogo e passa a ser não ter por onde sair. É isso que acontece com o trigo. Comprar de muitos países parece uma proteção, só que essa proteção falha quando os fornecedores sofrem ao mesmo tempo, seja pelo clima, seja pelas rotas de transporte. Com os estoques mundiais menores, o planeta acaba apostando o pão dos próximos anos em uma safra que ainda nem nasceu e em caminhos de escoamento frágeis. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, houve um golpe único, enorme e visível, que levou os preços a recordes; agora o cenário é outro, feito de muitos golpes pequenos que se somam. Por isso, uma boa forma de acompanhar notícias assim é anotar quais riscos estão acontecendo juntos e contar quantas alternativas ainda restam, em vez de procurar um único vilão. E vale lembrar que esse mesmo padrão aparece em redes de energia, em hospitais e até em investimentos: o perigo raramente está no tamanho de cada problema, mas em quantas saídas eles fecham ao mesmo tempo.
Impacts of Global shocks on food security – Joseph Glauber – On The Farm
As guerras na Ucrânia e o confronto entre Estados Unidos e Irã encareceram a energia, bagunçaram as rotas de navios e colocaram a comida do mundo inteiro em risco. Qu Dongyu, que comanda a FAO, a agência de alimentação e agricultura das Nações Unidas, alerta que fechar o Estreito de Ormuz, uma passagem de navios estreita e muito movimentada, tende a reduzir as colheitas e apertar a oferta de alimentos entre 2026 e 2027. No programa On The Farm, o economista Joseph Glauber, do IFPRI e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, explicou que petróleo e adubo estão nos preços mais altos desde 2022, o que pesa sobre cerca de 67 milhões de pessoas que já passam fome, segundo a FAO. Na visão dele, o maior problema hoje não são os grãos em si, mas o custo da energia usada para transportar e processar a comida; um estrago mais sério na agricultura só viria depois de 2027 se aquela passagem seguisse bloqueada. Ele também aponta um desequilíbrio duro: o agricultor paga muito mais caro pelo que precisa comprar, mas recebe quase o mesmo pela colheita, então o lucro encolhe. Para Glauber, ter comida na mesa é, antes de tudo, uma questão de quanto dinheiro entra na casa das famílias.
A África sente esses tremores com mais força, porque compra adubo em quantidades pequenas, usa pouco fertilizante e vive situações muito diferentes de um país para outro, como Quênia, Mali e Malawi. Com a energia cara, o transporte encarece e o adubo chega mais caro ainda. Fabricar fertilizante ali mesmo é difícil no curto prazo, já que depende de minerais concentrados em poucos lugares, como o potássio da Rússia, de Belarus e do Canadá, e de tecnologias limpas que ainda custam caro. Depois da pandemia, as guerras na Ucrânia e o conflito envolvendo Israel e Irã pressionaram trigo, milho e óleos vegetais, até porque Rússia e Ucrânia fornecem cerca de 30% do trigo do mundo. Mesmo assim, alimentos e adubos ficaram fora das sanções à Rússia, que continuou exportando e teve boa safra, ajudando o trigo a baratear, enquanto a Ucrânia perdeu um terço da sua capacidade de produzir. Problemas no Mar Vermelho e em Ormuz agravaram tudo, principalmente para países pobres e do Golfo. Glauber defende comprar de vários fornecedores: o Egito contornou a falta de trigo buscando Índia, França e América do Sul, e o mercado se reorganizou bem quando a Índia limitou a venda de arroz, porque os compradores tinham flexibilidade e licenças sanitárias em dia. Ainda assim, variar só compensa quando cabe no bolso, tanto que o Egito voltou ao trigo barato da Rússia e da Ucrânia. Para a FAO, as guerras estão entre as maiores causas de fome, e Glauber torce pela volta do comércio normal no Golfo Pérsico e por um clima favorável, apesar da preocupação com o El Niño no sul da África e no Sudeste Asiático, lembrando que a proteção real vem de investimentos pensados para durar anos, e não de soluções apressadas.
Quando estoura uma guerra do outro lado do mundo, muita gente imagina que a comida encarece porque o grão ficou preso em algum porto. O economista agrícola Joseph Glauber explica que a ligação entre conflito e preço do prato não é tão direta assim. O grão em si continua existindo e circulando; o que realmente sobe é o custo da energia. Adubo é feito em boa parte a partir de gás natural, trator precisa de combustível, e o transporte e o processamento também consomem energia. Como ninguém come trigo puro, e sim pão e biscoito, o peso maior no preço final vem justamente dessa energia embutida, não do valor do grão cru. Guerras como a da Ucrânia e a tensão entre Estados Unidos e Irã mexem nesse ponto. As sanções contra a Rússia deixaram alimentos e fertilizantes de fora de propósito, e o trigo russo continuou fluindo, o que evitou uma crise bem maior. Ainda assim, a Ucrânia perdeu cerca de um terço da sua capacidade de produzir. Quem também sofre é o agricultor: ele paga insumos caros antes de plantar e só descobre meses depois quanto vai receber pela colheita, num preço que não foi ele quem definiu. Nos Estados Unidos, o seguro agrícola ajuda a segurar essa renda, mas em países pobres não existe esse tipo de apoio.
O segundo ponto é ainda mais importante: a fome moderna raramente nasce de prateleira vazia, e sim de bolso vazio diante da prateleira cheia. Por isso vale sempre separar duas perguntas diferentes em qualquer notícia econômica: quanto custa o choque e quem tem dinheiro para pagar essa conta. O sistema mundial de alimentos também tem pontos frágeis conhecidos: fósforo e potássio, que viram fertilizante, existem em poucos lugares do planeta, e boa parte do transporte passa por passagens estreitas, como o Estreito de Hormuz. Cadeias muito eficientes escondem esses gargalos até o dia em que travam, algo parecido com o que acontece quando um único provedor de internet cai e derruba milhares de sites. A solução que todo mundo sugere é comprar de vários países, mas isso custa caro e nem sempre protege, já que todos podem depender da mesma rota ou da mesma energia. O Egito é um bom exemplo: depois de tanta conversa sobre diversificar, voltou a comprar cerca de 90% do trigo da Rússia e da Ucrânia, porque o preço baixo acabou vencendo o medo do risco. Glauber também alerta que a África não pode ser tratada como um bloco único, nem tudo explicado por má gestão local. E fica uma pergunta desconfortável: enquanto quase todas as políticas mundiais mexem em oferta e preço, quase ninguém cuida da renda de quem realmente passa fome.
