Política
Depois do ataque do grupo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, o ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, ficou com medo de que o Hezbollah, um grupo armado que fica no Líbano e recebe apoio do Irã, aproveitasse a confusão para atacar com força ainda maior. Para impedir isso, ele sugeriu um bombardeio gigantesco e imediato, com mais de mil ataques em um único dia, para destruir as armas do Hezbollah antes que fossem usadas. Disparos vindos do Líbano já no dia 8 de outubro aumentaram esse temor, embora antigos chefes dos serviços de informação não confirmassem a suspeita de invasão. O general Herzi Halevi apoiou a ideia, dizendo que era melhor enfrentar primeiro o inimigo mais forte. Já o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu resistia: adiou reuniões, deixou pedidos sem resposta por meio do assessor Ron Dermer, e este conversou com Jake Sullivan, do governo dos Estados Unidos, dando a entender que uma pressão americana seria bem-vinda. O presidente Joe Biden telefonou pedindo que Israel não avançasse, e Netanyahu respondeu que a decisão era de Israel. Na reunião, Benny Gantz e Gadi Eisenkot foram contra, achando os riscos maiores que os ganhos, e os americanos alertaram que a ofensiva poderia espalhar a guerra pela região. Houve até um alarme falso de invasão, causado por um bando de gansos, que quase provocou um ataque enorme. No fim, o plano foi rejeitado, e Israel concentrou forças contra o Hamas em Gaza. Quase um ano depois, em setembro de 2024, uma ofensiva coordenada, que incluiu a explosão de aparelhos, enfraqueceu muito o Hezbollah e abriu caminho para uma guerra de doze dias contra o Irã em 2025, que destruiu parte do programa nuclear iraniano. Essa história é reconstruída no livro “In the War Room”, e até hoje se discute se a cautela foi acertada ou se agir antes teria poupado o norte de Israel, que ficou esvaziado por causa dos ataques.
Desse episódio saem lições simples e úteis para a vida de qualquer pessoa. Quando alguém precisa lidar com dois problemas ao mesmo tempo, costuma ser mais inteligente começar pelo mais forte, porque o mais perigoso pode atacar de surpresa justamente quando as energias já foram gastas com o problema menor. Ou seja, a ordem em que os desafios são enfrentados muda bastante o resultado. Também vale ouvir avisos, opiniões e até pressões de outras pessoas, mas a escolha final pertence a quem vai arcar com as consequências. Decisões tomadas na correria e na confusão têm grande chance de estar erradas, então, antes de dar um passo que não pode ser desfeito, é sensato diminuir o ritmo e confirmar se os fatos são verdadeiros mesmo. E julgar uma escolha apenas pelo que aconteceu depois engana: um bom resultado não prova que a decisão inicial estava certa, assim como não significa que ser cauteloso era a única atitude razoável.
Logo depois do ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, o governo israelense precisou responder a uma pergunta muito difícil: atacar também o Hezbollah, um grupo armado mais forte que ficava na fronteira norte, ou esperar? O então ministro da Defesa, Yoav Gallant, defendia atacar primeiro o inimigo mais poderoso, seguindo uma velha regra militar que diz que, diante de duas ameaças, o mais perigoso deve ser enfrentado enquanto ainda há força para isso. Só que ninguém queria ser a pessoa a colocar o nome numa escolha que não teria volta. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ficou difícil de encontrar naquelas horas, o que funcionou como uma forma de dizer “não” sem deixar nada registrado. O embaixador Ron Dermer ligou para Jake Sullivan, do governo dos Estados Unidos, em vez de tratar o assunto com Gallant — na prática, um pedido para que os americanos pressionassem contra o ataque, de modo que a recusa parecesse vinda de fora. Esse jogo tem um nome simples: espalhar a assinatura. Quando a confiança nas informações dos serviços de inteligência desaba, como aconteceu depois da surpresa do 7 de outubro, a decisão deixa de ser técnica e vira política, e mais gente é chamada para a sala não para saber mais, mas para dividir a culpa. No meio dessa tensão, um radar apontou uma suposta invasão vinda do norte, algo que quase deu início a uma guerra enorme. Alguém pediu para conferir antes de agir. Eram gansos migrando.
Essa história, contada no livro “In the War Room: The Inside Story of Israel’s Fight Against Hamas and the Iranian Axis”, de Yonah Jeremy Bob e Elliot Kaufman, guarda uma lição que serve muito além da guerra. Hoje, como Israel acabou vencendo depois, é comum ouvir que a espera foi uma estratégia inteligente e paciente. Mas o resultado final nunca prova que a escolha foi certa, porque quem decidiu naquele momento não sabia o que se sabe agora. Se o Hezbollah tivesse atacado primeiro, a mesma cautela seria chamada de covardia. O mesmo desfecho consegue sustentar duas conclusões opostas: que atacar era o certo e que esperar era o certo. Por isso vale separar duas perguntas diferentes: a decisão foi boa e o resultado foi bom. Uma coisa não garante a outra. Esse mesmo padrão aparece em empresas, quando um chefe passa a convocar comitês e consultores depois de um erro grave, e na medicina, quando um médico pede exames demais e monta uma junta depois de um diagnóstico errado — a demora às vezes salva, às vezes custa caro. Hábitos simples ajudam: anotar a decisão e os motivos antes de conhecer o desfecho, revisar depois com honestidade e sempre confirmar os fatos antes de qualquer passo sem volta, mesmo sob muita pressão. Também ficam de fora do retrato as pessoas que pagaram pela espera, como os moradores do norte de Israel que passaram meses longe de casa.
