Política
Forget Baseball: Gambling Is America’s Real National Pastime. As apostas esportivas não são uma invenção recente, muito menos um problema novo, como muitas pessoas imaginam. David Bockino, autor do livro “Over/Under”, mostra que apostar em jogos sempre esteve presente na cultura dos Estados Unidos, há mais de duzentos anos. Na verdade, foram as apostas que ajudaram a tornar populares esportes como o beisebol, o golfe, o hóquei e o futebol americano. No final do século 19, em Nova York, o beisebol virou febre entre apostadores justamente porque era jogado ao ar livre e tinha um ritmo perfeito para apostar durante a partida. Já nos anos 1930, existiam sistemas parecidos com os de hoje, como cartões de apostas baratos, semelhantes a uma loteria, com poucas chances de ganhar. Com o tempo, a tecnologia mudou tudo: antes, os cálculos eram feitos à mão, com papel e caneta; hoje, são feitos quase na hora por computadores. Um exemplo disso são as chamadas “parlays”, apostas que combinam vários resultados ao mesmo tempo e que hoje representam a maior parte das apostas feitas em plataformas digitais, como a DraftKings.
Durante muito tempo, as ligas esportivas americanas proibiram as apostas, alegando que isso protegia a “integridade” dos jogos. Mas o verdadeiro motivo era financeiro: elas temiam perder dinheiro com ingressos e transmissões de TV. Isso só mudou quando as ligas perceberam que podiam lucrar ainda mais com patrocínios e com o maior envolvimento dos torcedores por meio das apostas. Uma lei chamada PASPA, criada em 1992, proibiu as apostas esportivas na maior parte dos Estados Unidos, até que, em 2018, a Suprema Corte decidiu que essa lei era inconstitucional, liberando o mercado. Essa proibição nunca foi pensada para proteger as pessoas, mas sim para atender aos interesses de ligas como a NFL e para combater o crime organizado. Isso mostra que as leis sobre apostas quase nunca nasceram de uma preocupação com o bem-estar da população, mas sim dos interesses de quem já estava envolvido no mundo dos esportes e do dinheiro. Hoje, as apostas fazem parte da forma como as pessoas assistem e vivem o esporte, trazendo lucro para empresas e mais valor para os times. Ainda assim, existe uma preocupação real com o exagero: excesso de propaganda, vício em apostas entre os jovens e o risco de as pessoas se importarem mais com o resultado da aposta do que com o próprio jogo. Já em 1870, um jornalista dizia que os americanos costumam exagerar em boas ideias até elas se tornarem um problema, um alerta que ainda faz muito sentido hoje.
Apostas esportivas sempre fizeram parte da história do esporte nos Estados Unidos, muito antes de virarem um assunto de debate público. Diferente do que muita gente pensa, apostar não é uma ameaça que chegou de fora para corromper o esporte puro. Na verdade, o interesse das pessoas em apostar foi uma das razões que ajudaram o esporte americano a crescer e virar um fenômeno de massa. Antigamente, calcular uma aposta exigia tempo e esforço manual, o que limitava quantas pessoas conseguiam apostar. Com o avanço da tecnologia, esses cálculos passaram a ser feitos por computadores em frações de segundo. Isso tornou apostar muito mais fácil, rápido e barato, e um comportamento que já existia há muito tempo simplesmente explodiu em popularidade. Esse tipo de mudança mostra um padrão importante: quando o custo de fazer algo cai bastante, esse comportamento deixa de ser raro e passa a ocupar um espaço enorme na vida das pessoas, quase da noite para o dia.
Por trás das leis que regulam as apostas esportivas, não existe necessariamente uma preocupação genuína com o bem-estar do público. Muitas vezes, essas leis nascem de acordos entre políticos e grandes organizações esportivas, como ligas de futebol americano, que têm interesse direto em como as apostas são reguladas. Um exemplo revelador é o caso de senadores que pediram autorização a ligas esportivas antes de votar certas leis, mostrando que o verdadeiro poder de decisão muitas vezes está nas mãos dessas organizações, e não do governo. Enquanto isso, discursos sobre “proteger a integridade do esporte” podem esconder, na prática, interesses financeiros de quem já lucra com o sistema. Esse tipo de situação também aparece em outras áreas da vida, como no uso de redes sociais ou no consumo de notícias: sempre que a barreira para fazer algo cai, um comportamento antigo pode se tornar um hábito de massa, e as regras que surgem depois tendem a proteger quem já está no poder, não necessariamente as pessoas comuns.
Negócios
The Price of Trust. A confiança que os investidores sentem por uma empresa não vem de promessas bonitas sobre o futuro. Ela vem de entender como os líderes daquela empresa realmente pensam e tomam decisões no dia a dia. Um bom exemplo disso é Roberto Cingolani, que liderou a empresa Leonardo. Ele usava as mesmas metas tanto para conversar internamente com sua equipe quanto para falar com o público, sem esconder nada e sem maquiar números. Essa honestidade é rara entre grandes empresas, mas trouxe um resultado incrível: a Leonardo passou a valer mais no mercado do que concorrentes conhecidas, como Thales e BAE Systems, mesmo tendo parecido menos valiosa no começo. Claro que existiram momentos difíceis nesse caminho, como atritos com interesses do governo e uma crise da Boeing que bagunçou os planos da empresa. Mas quando precisou mudar de estratégia, Cingolani assumiu o erro publicamente, o que só reforçou a confiança das pessoas nele. Vários estudos confirmam essa ideia: empresas que conversam com frequência com seus investidores e falam de forma clara costumam valer mais, ter ações mais fáceis de negociar e receber mais atenção de especialistas do mercado financeiro. Uma pesquisa feita na Indonésia, em 2020, descobriu que a forma como uma empresa é administrada de maneira transparente influencia mais o seu valor do que questões ambientais ou sociais. Essa mesma abertura também explica boa parte da confiança que os funcionários sentem por seus próprios chefes, sendo até mais importante do que deixá-los participar das decisões.
Empresas que fazem reuniões anuais com investidores crescem mais do que aquelas que não conversam nunca, e as que se encontram a cada três meses crescem ainda mais rápido. Negócios que divulgam seus resultados com regularidade também têm um desempenho melhor ao longo de muitos anos, enquanto os que fazem isso de forma bagunçada acabam ficando para trás. A marca de relógios Swatch é um exemplo recente disso: em 2025, ela começou a abrir suas reuniões de resultados para o público e a divulgar as conversas completas, e isso já ajudou a recuperar parte do seu valor. Outras empresas famosas, como a Berkshire Hathaway e a Constellation Software, mostram que não é preciso prometer números exatos para o futuro a fim de conquistar a confiança dos investidores. Basta mostrar, com sinceridade, como as decisões são tomadas por dentro. Estudos apontam que empresas transparentes chegam a valer até 35% a mais do que concorrentes parecidas que preferem esconder informações. Isso prova que a confiança verdadeira, construída aos poucos com clareza e honestidade, vale muito mais do que qualquer promessa vazia sobre o futuro.
CEO Clarity. Grandes empresas fazem reuniões a cada três meses para contar aos investidores como estão indo os negócios. Nessas ocasiões, o presidente da empresa fala sobre os resultados e depois responde perguntas de analistas. Alguns presidentes falam de forma clara e direta, enquanto outros usam muitas palavras de dúvida, como “talvez” ou “provavelmente”. Um grupo de pesquisadores analisou mais de 122 mil dessas reuniões, feitas por 5 mil empresas americanas entre 2003 e 2015, e descobriu algo curioso: essa forma de falar não tem relação com o quanto a empresa realmente enfrenta problemas ou incertezas. É simplesmente um jeito pessoal de cada presidente se expressar. Isso ficou ainda mais evidente na parte de perguntas e respostas, que acontece sem preparo, revelando o verdadeiro estilo de cada pessoa. Quando presidentes trocavam de empresa, esse jeito de falar continuava o mesmo, provando que se trata de uma característica pessoal, e não uma estratégia da empresa.
Essa forma de falar tem um efeito muito forte no mercado financeiro. Quando o presidente se comunica com clareza, os investidores confiam mais, prestam mais atenção e reagem mais rápido, fazendo o valor da empresa subir, mesmo sem nenhuma mudança real nos negócios. Isso acontece porque falar claro passa a impressão de segurança e conhecimento, o que deixa as pessoas mais confiantes na informação recebida. Os pesquisadores até comprovaram que, quando um presidente mais confuso é trocado por outro mais claro, o valor da empresa pode aumentar bastante, chegando a cerca de 77 milhões de dólares em empresas de porte médio. Apesar disso, muitas empresas ainda não dão a devida importância a essa habilidade na hora de contratar ou recompensar seus líderes. Esse resultado reforça uma ideia defendida por especialistas em gestão, como Ray Dalio, de que a transparência e a clareza na comunicação podem, de fato, ajudar os negócios a se saírem melhor, mesmo que esse valor ainda não seja bem reconhecido dentro das empresas.
Tecnologia
A new, inexpensive Chinese AI model is catching up with Anthropic, OpenAI on their home turf
A new, inexpensive Chinese AI model is catching up with Anthropic, OpenAI on their home turf. Uma nova inteligência artificial chinesa chamada GLM-5.2, criada pela empresa Z.ai, está chamando muita atenção no mundo da tecnologia. Ela é muito boa em tarefas de programação e em atividades complexas, e custa bem menos do que os modelos feitos por empresas americanas como a OpenAI e a Anthropic. Essa situação lembra o que aconteceu antes com outra inteligência artificial chinesa, a DeepSeek, por isso muita gente está chamando esse momento de “mini momento DeepSeek”. O GLM-5.2 subiu rapidamente em rankings que medem a qualidade de inteligências artificiais, ficando em 5º lugar geral e em 2º lugar em tarefas de programação, chegando a custar seis vezes menos que as versões americanas. Pessoas influentes da área de tecnologia, como Sridhar Ramaswamy, Marc Andreessen e David Sacks, elogiaram essa inteligência artificial chinesa, dizendo que ela tem qualidade parecida com os modelos americanos mais avançados, como o Opus 4.8, da Anthropic, e o GPT 5.5, da OpenAI. David Sacks chegou a pedir que o governo dos Estados Unidos evite criar regras que prejudiquem as próprias empresas americanas de inteligência artificial, já que a distância tecnológica em relação à China está diminuindo rapidamente. Parte desse interesse também vem de problemas nas empresas americanas: a Anthropic enfrenta restrições e o lançamento do GPT-5.6 está atrasado, o que faz programadores e empresas buscarem alternativas mais baratas e de código aberto, que podem ser ajustadas por qualquer pessoa.
Apesar de tantas vantagens, existem barreiras para o uso dessa tecnologia chinesa, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Empresas americanas temem problemas de segurança com seus dados, especialmente em setores sensíveis como bancos, e trocar de sistema de inteligência artificial pode levar meses até funcionar com segurança. Na Europa, questões políticas envolvendo a China também fazem muitas empresas evitarem essa adoção, mesmo sabendo que o produto é bom e barato. Ainda assim, um exemplo mostra como essa mudança pode ser rápida: o modelo chinês DeepSeek R1 fez o uso de tecnologia chinesa saltar de 3% para 13% em apenas dois meses, principalmente em países em desenvolvimento, chegando a afetar ações de empresas americanas de tecnologia. Especialistas explicam que é possível usar essas ferramentas chinesas com segurança, rodando-as em computadores americanos ou locais para proteger os dados. Empresas pequenas e startups estão adotando essas soluções mais rápido que as grandes corporações, pois se importam mais com o preço e o funcionamento do que com o país de origem. Assim, o mercado de inteligência artificial não está sendo tomado de uma vez pelas opções chinesas, mas sim dividido aos poucos entre diferentes fornecedores, mostrando que o que realmente importa hoje é a eficiência e o custo, não a origem da tecnologia.
Essa mudança toda mostra algo importante: quando fica muito mais barato copiar a qualidade de um produto, a vantagem deixa de ser de quem tem mais dinheiro e passa a ser de quem entrega a solução mais simples e mais em conta. É como quando um produto genérico fica tão bom quanto uma marca famosa, e as pessoas param de se importar com o rótulo. Algo parecido aconteceu quando fábricas japonesas alcançaram os padrões americanos em eletrônicos e carros, décadas atrás. A diferença agora é que copiar um programa de inteligência artificial é muito mais rápido do que copiar uma fábrica inteira, então essa mudança acontece em uma velocidade muito maior. Por isso, a vantagem que empresas americanas tinham nesse tipo de tecnologia está enfraquecendo, e ninguém parece estar conseguindo criar inovações rápidas o bastante para manter essa liderança. Curiosamente, as próprias regras e restrições dos Estados Unidos, feitas para impedir que empresas usem tecnologia chinesa, podem estar fazendo o efeito contrário: empurrando ainda mais gente para essas alternativas mais baratas.
Ainda existem perguntas importantes que precisam ser levadas em conta antes de tirar conclusões apressadas. Muitas vezes, comparações de desempenho entre modelos de inteligência artificial são tratadas como verdades absolutas, mas será que essas medições realmente são neutras, ou já vêm influenciadas pela disputa política entre países? Além disso, há um detalhe que muda tudo: quando a decisão de usar ou não uma tecnologia é tomada por motivos políticos, e não por qualidade ou preço, empresas que precisam seguir regras rígidas podem recusar um produto mesmo sendo ele melhor e mais barato. Isso significa que o fator custo nem sempre é o que decide o vencedor. A grande questão que fica no ar é: em que momento esse uso crescente, mas ainda parcial, de tecnologias chinesas de inteligência artificial deixa de ser apenas uma alternativa e passa a representar uma divisão permanente entre dois mundos tecnológicos que não se comunicam mais entre si?
Squawk Pod: Palantir CEO Alex Karp: CEOs are Livid. Alex Karp é o executivo da empresa de tecnologia Palantir. Ele fechou um acordo importante com a Nvidia para criar sistemas de inteligência artificial voltados para o governo dos Estados Unidos. Mesmo assim, ele se preocupa com um problema maior: muitas empresas vendem inteligência artificial sem entregar segurança e controle de verdade para quem compra. Para Karp, o valor real não está em apenas usar uma tecnologia alugada, mas em quem realmente a produz e controla. A Palantir criou algo chamado “ontologia”, que funciona como uma camada extra de proteção para os dados quando a inteligência artificial é usada em operações militares ou empresariais importantes. Isso é diferente de empresas que entregam modelos de inteligência artificial “crus”, sem essa proteção. Por isso, a Palantir ganhou a confiança de clientes sensíveis, como o governo dos Estados Unidos, a Ucrânia e Israel, trabalhando lado a lado com essas operações, e não apenas fornecendo uma ferramenta pronta. Karp explica que qualquer empresa ou governo precisa manter controle sobre quatro coisas: o poder de processamento dos computadores, os modelos de inteligência artificial, os dados, e a vantagem competitiva que esses dados representam. Pagar apenas pelo uso de uma inteligência artificial, sem ter esse controle, pode fazer a empresa perder o que ela tem de mais valioso, mesmo usando modelos abertos e gratuitos, desde que o cliente continue no comando das informações. Ele afirma que a demanda pela Palantir é maior do que a empresa consegue atender agora, esperando gerar entre 15 e 18 bilhões de dólares em caixa nos próximos dois anos, e critica investidores que confundem simplesmente usar uma tecnologia com realmente entender o impacto dela nos negócios.
Karp também acredita que não existe uma bolha prestes a estourar no mercado de inteligência artificial, porque essa tecnologia já mostrou valor real em situações concretas, como nas operações de defesa dos Estados Unidos, de Israel e da Ucrânia. Para ele, os verdadeiros centros de inovação em inteligência artificial no mundo são apenas três: Estados Unidos, China e Israel. Ele defende que essa tecnologia deveria beneficiar todos os americanos, e não apenas um pequeno grupo de empresas, e critica tanto a esquerda quanto a direita política dos Estados Unidos: a esquerda, por tratar o sucesso tecnológico como algo ruim, e a direita, por atacar as empresas de tecnologia como se fossem vilãs, o que atrapalha a competição do país contra a China. Segundo ele, essa disputa tecnológica com a China é séria e não garantida, sendo uma competição onde só existe vencer ou perder, sem meio-termo. Sobre Israel, ele se declara publicamente a favor do país, mesmo reconhecendo que existem críticas legítimas ao governo local, e afirma que discordâncias entre parceiros, como aconteceu entre Estados Unidos e Israel, são normais e até saudáveis, desde que o apoio público continue firme. Sobre o Irã, ele acredita que o poder do país foi enfraquecido, mas prefere não dar detalhes, dizendo que certos assuntos sensíveis de segurança devem ficar fora de conversas públicas. Karp defende ainda que é mais vantajoso ter parceiros internacionais independentes e maduros, mesmo que discordem às vezes, do que ter aliados que apenas concordam com tudo sem questionar.
Alex Karp, que dirige a empresa de tecnologia Palantir, explicou por que é perigoso para uma empresa usar modelos de inteligência artificial genéricos sem nenhuma proteção. Segundo ele, quando uma empresa paga para usar um modelo de IA pronto, ela não está apenas gastando dinheiro com uma ferramenta comum. Na verdade, ela está entregando, aos poucos, sua vantagem competitiva para quem criou aquele modelo, porque os dados e o conhecimento da empresa acabam alimentando o sistema de outra companhia. Por isso, Karp defende que negócios importantes precisam construir uma camada própria de proteção e aplicação em cima da inteligência artificial, em vez de usá-la “pura”. Ele também destacou que quem realmente controla o valor de um negócio de tecnologia é quem possui os dados, os modelos e os computadores usados para fazer a inteligência artificial funcionar, e não quem apenas usa essas ferramentas no dia a dia.
Karp ainda comentou sobre a disputa tecnológica entre os Estados Unidos e a China, dizendo que essa competição não depende só de quem tem a tecnologia mais avançada. Para ele, os Estados Unidos precisam de união interna, ou seja, as pessoas e empresas do país precisam trabalhar juntas e confiar umas nas outras para conseguir competir de verdade com a China nessa área. Ele deu a entender que, sem essa confiança e cooperação internas, mesmo tendo boa tecnologia, o país pode perder espaço na corrida pela inteligência artificial.
Cultura
The Ample Rewards of Ben Lerner’s Slender New Novel.
A verdadeira criatividade não nasce de copiar perfeitamente o que já passou, mas sim de transformar as memórias e influências em algo totalmente novo. O escritor Ben Lerner mostra isso ao criar histórias que misturam lembranças pessoais com a ficção. Em uma de suas obras, um jovem escritor viaja até Providence para entrevistar seu idoso mentor, Thomas. Após perder acidentalmente o aparelho de gravação, o rapaz decide reconstruir toda a conversa usando apenas a memória e a imaginação. Esse ato de reinventar a realidade é um recurso antigo, parecido com o que o pensador grego Platão fez ao transformar o mestre real, Sócrates, em um personagem literário. Inspirado também pelo autor Alexander Kluge, Lerner defende que a fantasia ajuda a dar um novo sentido aos fatos reais. Afinal, como explicava o pensador Emerson, as pessoas buscam nos outros o seu próprio potencial, mas o crítico Bloom alerta que apenas imitar os ídolos gera obras sem vida. A verdadeira arte surge quando as influências são modificadas para encontrar uma voz única.
Essa capacidade de transformar o sofrimento e os traumas familiares em algo positivo também é uma forma de cura e renovação. Na relação com mentores ou parentes, como no caso de Thomas, que escondia as frustrações atrás dos livros, a escrita serve como uma ferramenta para quebrar ciclos de dor que passam de geração em geração. Lerner faz isso ao reescrever a famosa e triste obra “O Veredicto”, de Franz Kafka, transformando um final trágico em uma mensagem de esperança. Em seus outros romances, como “Leaving the Atocha Station”, “10:04” e “The Topeka School”, ele explora como as mentiras e os momentos difíceis da infância podem ser superados pela união e pelo afeto entre as pessoas. Em um mundo onde as telas de celular muitas vezes provocam isolamento, a arte de contar histórias ajuda a aproximar as famílias e a resolver velhos conflitos. No fim das contas, aceitar as falhas do passado e escolher o perdão mostra que o amor verdadeiro é sempre muito maior do que qualquer erro cometido.
Muitas vezes, as pessoas carregam dores, hábitos e estilos de seus familiares e de criadores do passado de forma totalmente inconsciente. Esse processo de herdar padrões emocionais e criativos é algo natural da humanidade, um tema debatido desde o filósofo Platão até pensadores modernos como Ralph Waldo Emerson, que refletiu sobre a missão do poeta, e Harold Bloom, que estudou como os autores lidam com a influência de quem veio antes. O grande desafio, que aparece de forma marcante nas histórias de Franz Kafka sobre julgamentos e artistas da fome, e nos livros de Ben Lerner — como 10:04, Estação Atocha, A Escola de Topeka, Transcrição, e As Neves de Veneza, escrito em parceria com Alexander Kluge —, é aprender a lidar com esse passado sem cair em armadilhas. Essas armadilhas acontecem quando alguém copia exatamente as influências antigas por medo de inovar, ou quando apaga por completo os fatos reais, destruindo a verdade do que realmente aconteceu.
Para superar isso e encontrar uma voz própria, a solução está em filtrar ativamente as lembranças e aceitar que a memória humana não é perfeita. Em vez de buscar uma precisão rígida sobre os fatos, as pessoas podem reinterpretar suas dores e transformar pequenos erros do cotidiano em novos significados cheios de afeto, um processo que o crítico Giles Harvey elogiou ao analisar o impacto das obras de Ben Lerner. Com o tempo, as lembranças familiares tendem a se apagar e se perder, mas o esforço criativo funciona como uma ferramenta para resgatar o que restou e dar um novo rumo à história pessoal. No final, criar não significa reproduzir o passado de forma idêntica, mas sim ter a coragem de usar a imaginação para remodelar as feridas antigas e transformá-las em caminhos de cura e de renovação.
Jocko Podcast 547: How to Master Uncertainty.. Rich Diviney, que foi comandante dos Navy SEALs, explica como as pessoas podem lidar melhor com o medo e o estresse em situações de muita pressão. Segundo ele, o medo nunca some completamente, mas pode ser controlado com prática repetida em situações que assustam; sem esse treino constante, porém, o medo volta com força total. Ele explica que a ansiedade é, na verdade, uma espécie de história que a mente cria sobre um futuro que ainda não aconteceu, e por isso os SEALs treinam para focar apenas no que podem controlar, em vez de imaginar todos os desastres possíveis. Quando o corpo entra em alerta extremo, a parte do cérebro responsável por pensar racionalmente quase para de funcionar, e o corpo passa a agir no automático, por isso o treino serve justamente para ensinar reações corretas mesmo sob pressão. Diviney apresenta uma técnica chamada “horizontes móveis”, que ajuda a reduzir o medo ao responder três perguntas simples: quanto tempo a situação vai durar, como sair dela e qual será o resultado final. Ele também explica que dividir uma meta grande em pequenas conquistas ajuda a manter a motivação, porque o cérebro libera uma substância chamada dopamina a cada pequena vitória; por isso as metas precisam ser desafiadoras, mas possíveis de alcançar, nem muito distantes, nem fáceis demais. Ele ainda recomenda técnicas simples para acalmar o corpo, como respirar fundo, abrir o campo de visão e usar uma respiração especial conhecida como suspiro fisiológico, que ajuda a ativar a parte do sistema nervoso ligada à calma.
Diviney também fala sobre 36 características que cada pessoa carrega, como paciência, humor ou empatia, e diz que não é necessário melhorar todas elas, já que algumas fraquezas podem até ser úteis em certas situações, como no caso de médicos de emergência que precisam manter pouca emoção para agir com clareza. Ele defende que equipes fortes surgem da mistura de personalidades diferentes, e que a identidade de uma pessoa, ou seja, quem ela realmente é, pesa mais do que suas habilidades técnicas na hora de agir sob pressão. Da mesma forma, para ele, empresas e times também têm uma identidade coletiva, que precisa ser construída com clareza pelos líderes, e não apenas por meio de metas soltas. Diviney explica que a confiança dentro de um grupo se constrói aos poucos, apoiada em cinco pilares: coragem, competência, consistência, caráter e compaixão, e que muitos times falham por cuidarem apenas dos dois primeiros, esquecendo de realmente se importar com as pessoas. Ele afirma que um mau desempenho geralmente mostra que a pessoa está na função errada, não que ela seja incapaz, e que um bom líder precisa agir de acordo com os valores que ensina, já que pequenos comportamentos, como atrasos ou quebra de regras, acabam sendo copiados pela equipe e moldam toda a cultura do grupo. Por fim, ele conta que seu irmão, piloto de um avião de caça chamado Harrier, sobreviveu a um acidente grave ao se ejetar de uma aeronave que caía de cabeça para baixo em direção à água, e lembra que quase todos os acidentes aéreos acontecem por erro do próprio piloto, muitas vezes por excesso de confiança, reforçando sua ideia de que cada pessoa é responsável pelas próprias decisões, tanto no céu quanto na vida cotidiana.
Esporte
Tennis Has a New Problem: Sinner and Alcaraz Are Too Good. Jannik Sinner e Carlos Alcaraz são dois jovens tenistas que estão dominando o tênis mundial de um jeito quase nunca visto antes. Nos últimos cinco anos, eles se enfrentaram 17 vezes em competições importantes, e desde 2024 dividiram entre si praticamente todos os grandes títulos do esporte, incluindo os 4 torneios mais importantes do ano, conhecidos como Grand Slams. No passado, o tênis também teve uma fase de forte domínio, com Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic brilhando por cerca de 20 anos, mas eles surgiram aos poucos, um depois do outro, dando tempo para o público se acostumar com cada novo craque. Já Sinner e Alcaraz explodiram ao mesmo tempo, criando uma diferença tão grande em relação aos outros jogadores que a distância entre o segundo e o terceiro colocado do ranking é maior do que a distância entre o terceiro colocado e o jogador que ocupa a posição mil. Sinner joga de um jeito sólido e consistente, enquanto Alcaraz é mais criativo e imprevisível, e essa combinação deu origem ao apelido “Sincaraz” para a rivalidade dos dois. Mesmo sendo os principais rivais um do outro, eles mantêm uma relação amigável, chegando a treinar juntos e viajar nos mesmos voos entre torneios, o que mostra que a disputa é mais esportiva do que pessoal.
Esse domínio tão grande trouxe um efeito colateral importante: os torneios ficaram mais previsíveis, já que quase sempre são eles dois que chegam à final. Quando um dos dois perde, geralmente é por causa de lesão ou problema físico, e não porque outro jogador jogou melhor. Isso aconteceu em Roland Garros, na França, quando Sinner saiu ainda no início da competição por causa de cãibras causadas pelo calor, abrindo caminho para Alexander Zverev vencer seu primeiro grande título. Mesmo assim, nenhum outro jogador conseguiu aproveitar essas brechas para se firmar no topo do ranking. Jovens promissores, como Jack Draper, João Fonseca e Arthur Fils, são vistos como possíveis futuros desafiantes, mas ainda enfrentam limitações, como lesões ou falta de consistência para vencer os dois de forma repetida. Muitos fãs, como a torcedora Katie Turner, moradora de São Francisco, nos Estados Unidos, passaram a acompanhar o tênis com mais paixão por causa dessa rivalidade, acordando cedo até para assistir a torneios menores. Especialistas acreditam que, mesmo parecendo repetitivo, esse momento é tão raro e especial que vai deixar saudade quando um dos dois finalmente perder espaço no topo do esporte.
