O grande perigo, porém, é quando essas práticas se tornam gestos automáticos, feitos sem atenção ou sentimento genuíno. Quando alguém realiza um ritual apenas por obrigação, sem pensar no que está fazendo, o ato perde completamente o seu significado. O que realmente importa é a intenção por trás de cada ação. O rabino Moshé Pinto compartilha que passou anos estudando judaísmo intensamente em uma escola religiosa chamada yeshiva, em Paris, com cerca de 12 horas de estudo por dia desde os 15 anos, com mestres como Rav Shlesinger. Mesmo assim, ninguém lhe explicou com clareza o verdadeiro propósito daquele aprendizado, o que deixou um vazio profundo em sua relação com a fé. Essa experiência o ensinou que transmitir o significado real de uma prática é tão importante quanto a prática em si. Além disso, ele ressalta que não existe hierarquia na aproximação com Deus: um médico, um professor ou um comerciante honesto podem estar tão próximos do Divino quanto qualquer estudioso, pois o que determina essa proximidade não é a profissão, mas a consciência e a intenção presentes em cada ação do dia a dia.
O que realmente determina a proximidade de uma pessoa com Deus não é a profissão que ela exerce nem a quantidade de práticas religiosas que realiza, mas sim a intenção e a consciência que ela coloca em cada ação do dia a dia. Um soldado que age com sinceridade pode estar mais próximo de Deus do que um estudioso que cumpre rituais sem nenhum sentimento. Da mesma forma, um comerciante honesto que trabalha com respeito pode ter uma ligação mais genuína com o Divino do que alguém que segue mandamentos apenas por formalidade. As práticas religiosas existem como ferramentas para ajudar nessa conexão, mas o que dá valor a qualquer gesto é a intenção verdadeira por trás dele. Quando alguém realiza um ato religioso com o coração presente, esse momento se torna um encontro real com Deus. Quando o mesmo gesto é feito no automático, ele se torna um hábito vazio. Por isso, Deus não quer estar presente apenas em espaços sagrados ou momentos de oração, mas também no trabalho, nas relações humanas e nas situações mais simples do cotidiano.
Essa ideia aparece em uma história importante da tradição judaica, que envolve Moisés e um grupo de líderes espirituais que tinham medo de entrar na Terra de Israel. Eles temiam que, ao assumir responsabilidades práticas como trabalho e guerra, perderiam a conexão com Deus. Mas esse pensamento estava errado, pois o ensinamento do Rabi de Lubavitch deixa claro que Deus quer habitar a vida real das pessoas, e não apenas os momentos de isolamento espiritual. Outro personagem dessa tradição, chamado Corá, que viveu na época de Moisés, aceitou a ideia de que todos são iguais diante de Deus, mas concluiu que isso tornava qualquer forma de liderança desnecessária. Moisés concordou com a igualdade espiritual, mas explicou que as pessoas ainda precisam de referências concretas para seguir, como os Cohanim, que são líderes religiosos que servem como exemplos visíveis para a comunidade. O ensinamento central é que cada ação feita com consciência e boa intenção contribui para revelar a presença divina no mundo, e que a chegada do Mashiach, figura da tradição judaica associada à redenção e à transformação do mundo, é construída justamente pela soma dessas ações humanas sinceras ao longo do tempo.
Uma ideia central que aparece nessa parte da conversa é que a verdadeira conexão com Deus não depende do tipo de atividade que a pessoa faz, mas sim do motivo pelo qual ela faz. Tanto quem passa o dia estudando textos religiosos quanto quem passa o dia trabalhando honestamente podem estar igualmente próximos de Deus, desde que ajam com intenção genuína. Obras como o Messilat Yesharim, do Rabbi Moshé Chaim Luzzatto, e os ensinamentos do Rebe reforçam essa ideia: o sagrado não precisa estar separado da vida comum. Ele pode aparecer em qualquer momento simples do dia, desde que a pessoa esteja consciente do propósito daquilo que está fazendo. Personagens bíblicos que relutavam em deixar o deserto não demonstravam fraqueza, mas sim o medo de perder uma experiência intensa de presença divina que aquele lugar proporcionava.
O grande problema identificado é quando as práticas religiosas se tornam automáticas e perdem o significado por dentro. Isso é chamado de deriva da forma: a pessoa continua fazendo tudo certo por fora, mas sem nenhuma consciência real por dentro. Livros como os Contos de Rabbi Nachman de Breslov e o Livro de Téhilim existem justamente para ajudar as pessoas a recuperar esse sentido vivo dentro das práticas. Uma boa forma de evitar esse esvaziamento é pausar antes de qualquer ação e perguntar: com quem estou me conectando agora? Pequenas ações feitas com clareza de propósito valem mais do que muitas ações feitas no modo automático. O tamanho do esforço não é o que aproxima a pessoa de Deus, mas sim a consciência com que ela age em cada momento da sua vida.
Com o passar do tempo, a Lei de Sturgeon foi ganhando cada vez mais força. Em 1974, o próprio Sturgeon admitiu que a maioria das obras de ficção científica era fraca, mas defendeu que os 10% restantes eram tão profundos e filosóficos quanto qualquer grande obra da literatura. Na internet, a partir de 1996, essa ideia se espalhou amplamente pelo mundo. Nos anos 2000, o filósofo americano Daniel Dennett transformou a Lei de Sturgeon em uma ferramenta de pensamento crítico, ensinando as pessoas a avaliarem o mundo com mais cuidado. Para Dennett, o fato de a maioria de um campo ser fraca não justifica atacar esse campo inteiro — o correto é analisar as melhores obras, e não as piores. Outros pensadores também brincaram com a ideia, como o estudioso Lerner, que sugeriu que softwares seriam ainda piores, e Barnett, que estimou que cerca de 94,7% dos livros infantis seriam de baixa qualidade.
Uma das armadilhas mais comuns ao avaliar um campo do conhecimento ou da arte é usar apenas o que apareceu por acaso no caminho de alguém para tirar conclusões sobre o todo. Escritores como Benjamin Disraeli, Rudyard Kipling e George Orwell chegaram, em épocas diferentes e sem se comunicar, à mesma conclusão: cerca de 90% de tudo que é produzido pelos seres humanos é de baixa qualidade. Isso não é uma opinião sobre um gênero específico, mas um padrão que se repete em praticamente toda área criativa. O filósofo Daniel Dennett usou essa ideia como ferramenta de pensamento crítico, e ela ajuda a entender por que comparar o pior de um campo com o melhor de outro é uma comparação desonesta desde o início.
Esse raciocínio se conecta a um fenômeno conhecido em outros campos: o viés do sobrevivente. Na literatura, os livros esquecidos somem com o tempo, e apenas os melhores permanecem visíveis, criando a ilusão de que certos gêneros são superiores. O mesmo acontece com fundos de investimento e até com aviões analisados durante a Segunda Guerra. O que chega aos olhos de alguém não é o campo inteiro, mas apenas o que sobrou depois de vários filtros. Por isso, antes de afirmar que um campo é inferior, vale perguntar: essa conclusão vem do campo todo ou apenas do pedaço que chegou até mim por acaso? Quem faz essa pergunta percebe que a mediocridade não define nenhum campo em especial, ela é simplesmente parte da condição humana de criar.
Esse padrão se repete em todos os lugares: cerca de 60% dos filmes dão prejuízo, 96% dos aplicativos são abandonados pelos usuários já no primeiro mês, e 90% dos livros vendem menos de 2 mil cópias. O economista Vilfredo Pareto já havia percebido algo parecido ao notar que 80% da riqueza fica nas mãos de apenas 20% das pessoas. O sucesso de poucos é o que sustenta o sistema para todos. O passado parece melhor porque o tempo apaga o que era ruim e preserva apenas o que tinha valor. Isso não quer dizer que os 90% ruins são inúteis: eles ensinam, geram tentativas e criam o caminho para os 10% que realmente funcionam. O verdadeiro problema aparece quando os filtros que separam o bom do ruim param de funcionar. Quando algoritmos passam a priorizar cliques em vez de qualidade, o conteúdo medíocre ocupa o espaço do que realmente tem valor. A solução prática, portanto, é buscar ativamente o que tem qualidade, em vez de apenas se perder no meio do ruído.
Aprender a navegar por um mundo cheio de informação ruim exige uma postura ativa. A primeira atitude importante é sempre questionar qual mecanismo está filtrando o que chega até a pessoa, e se esse mecanismo ainda funciona de forma honesta. Popularidade ou visibilidade não são provas de qualidade em nenhum campo. Nassim Nicholas Taleb, em livros como “Antifrágil” e “A Lógica do Cisne Negro”, explora bem essa ideia de que sistemas aparentemente confiáveis podem enganar. Tom Nichols, em “The Death of Expertise”, mostra como a desconfiança nos especialistas agrava esse problema. Outro cuidado importante é tratar o próprio trabalho com humildade, reconhecendo que ele provavelmente faz parte dos 90% que ainda precisam melhorar, e buscar opiniões externas com critérios claros para avaliar isso.
O maior perigo não é a existência de coisas ruins, pois isso sempre foi inevitável em qualquer campo de produção em larga escala. O problema real começa quando o sistema que deveria esconder ou eliminar o ruim passa a promovê-lo ativamente. No ambiente digital, por exemplo, algoritmos que tratam cliques e qualidade como se fossem a mesma coisa funcionam de forma parecida com o que o economista Gresham descreveu sobre o dinheiro ruim expulsando o bom. Quando os filtros de qualidade se corrompem, seja na ciência, na música, nos filmes ou na internet, o ruído sufoca o sinal. Por isso, a única saída prática é buscar ativamente curadores e fontes com critérios reais de qualidade, em vez de depender de mecanismos que já perderam a capacidade de separar o bom do ruim.
Sturgeon também notou que a ficção científica era julgada pelos seus piores exemplos, enquanto outros tipos de literatura, como histórias de faroeste ou policiais, escapavam desse julgamento exagerado. Para ele, isso não era por acaso: as pessoas tendem a criticar com mais força aquilo que secretamente respeitam ou temem. Além disso, muita gente tinha preconceito com a própria palavra “ciência” no nome do gênero, o que fazia com que obras excelentes fossem ignoradas por causa do rótulo, e não pelo que continham de verdade. Curiosamente, essas mesmas obras eram elogiadas quando apresentadas sem esse rótulo, o que provava que o julgamento se baseava na aparência, e não na qualidade real do conteúdo.
Theodore Sturgeon percebeu algo que poucos observadores enxergam: quando alguém ataca um campo inteiro pelos seus piores exemplos, esse ataque diz mais sobre quem critica do que sobre o que está sendo criticado. No caso da ficção científica, a violência das críticas era proporcional ao respeito que as pessoas tinham pela Ciência como instituição. Como o gênero carregava o nome “científico”, qualquer obra ruim dentro dele parecia uma ameaça ao símbolo da Ciência, e o impulso era destruir o gênero inteiro para proteger essa ideia. O mesmo padrão aparece na política, na religião e em outros campos: quanto mais alguém respeita um símbolo, mais furioso fica quando algo ligado a ele decepciona. A Inquisição, por exemplo, perseguia hereges internos com mais ferocidade do que inimigos externos, pela mesma lógica de proteção do símbolo.
O problema real não é apenas o preconceito dos críticos, mas quem controla o que fica visível para o público. Quando apenas os piores exemplos de um campo são amplificados, obras de qualidade como as de Philip K. Dick e Fredric Brown ficam na sombra sem esforço nenhum. Para reverter isso, é preciso que leitores e críticos busquem deliberadamente o melhor que um campo oferece, em vez de deixar os exemplos mais fáceis de atacar dominarem a percepção geral. A Lei de Sturgeon descreve a proporção, mas não explica quem escolhe o que entra na vitrine. E essa escolha, feita com medo ou com honestidade, é o que realmente define como qualquer campo é lembrado.
Além disso, as pessoas costumam se avaliar de forma errada quando o assunto é o quanto sabem. Iniciantes tendem a achar que dominam mais do que realmente dominam, enquanto quem já estudou bastante percebe o quanto ainda falta aprender. Esse comportamento foi estudado por David Dunning, da Universidade Cornell, e cria uma ilusão de competência que atrapalha o aprendizado verdadeiro. Esse problema também varia de acordo com a cultura: em países ocidentais, as pessoas tendem a superestimar o próprio conhecimento, enquanto em países asiáticos a tendência é o oposto, subestimar o que sabem por causa de uma cultura de modéstia. As crianças de hoje, por sua vez, têm acesso a melhores ferramentas de aprendizado, alimentação mais adequada e mais estímulos intelectuais do que as gerações anteriores, o que contribui para um desenvolvimento do conhecimento cada vez mais acelerado ao longo do tempo.
Entre os anos 1930 e 2010, os seres humanos ficaram, em média, mais inteligentes. Isso foi comprovado por testes que mostraram um aumento de 24 pontos na pontuação média de inteligência ao longo desse período, fenômeno chamado de Efeito Flynn. Fatores como educação de qualidade, acesso à tecnologia e à informação ajudam a explicar essa melhora. Quando alguém aprende algo novo, o cérebro muda fisicamente, criando conexões reais entre os neurônios e se tornando mais capaz de entender o mundo. As gerações mais jovens, que crescem com muito mais acesso à informação, têm ainda mais chances de desenvolver essa capacidade. Mesmo assim, o conhecimento humano cresce de forma tão acelerada que chega a dobrar a cada 12 horas, tornando impossível para qualquer pessoa acompanhar tudo. Um médico especialista, por exemplo, representa hoje apenas 0,07% de todo o conhecimento acumulado pela humanidade.
Com a inteligência artificial acelerando ainda mais esse processo, a fatia do que qualquer pessoa domina fica cada vez menor, mesmo que ela continue aprendendo. Alguém que hoje domina dez por cento do conhecimento de uma área pode, no ano seguinte, representar menos de cinco por cento, simplesmente porque o total cresceu muito mais rápido do que sua capacidade de aprender. Avaliar o próprio nível de conhecimento também é uma tarefa difícil, pois as pessoas tendem a se creditar pelo sucesso e culpar fatores externos pelos erros. Essa distorção ainda varia conforme a cultura: no Ocidente, há uma tendência de superestimar as próprias habilidades, enquanto em países asiáticos ocorre o oposto. Apesar de tudo isso, aprender continua sendo uma experiência profundamente transformadora, e qualquer ensinamento, seja de um livro ou de outra fonte, só consegue mudar alguém quando essa pessoa está genuinamente disposta a se transformar.
Existe um padrão que se repete em situações muito diferentes, como na natureza, nas finanças e no aprendizado humano. Esse padrão tem um nome simples: quando o todo cresce mais rápido do que uma parte, essa parte encolhe proporcionalmente, mesmo que também esteja crescendo. Na ecologia, uma espécie pode não desaparecer por fraqueza, mas porque o ambiente ao redor muda rápido demais para ela acompanhar. Nas finanças, uma empresa pode aumentar seu faturamento e mesmo assim perder espaço num mercado que cresce ainda mais rápido. Com o conhecimento humano acontece exatamente o mesmo: uma pessoa pode aprender mais a cada ano e, ainda assim, dominar uma fatia cada vez menor do que a humanidade sabe ao todo. Isso não é metáfora, é matemática pura.
O problema mais sério que surge desse cenário é que a própria ideia de ser especialista em alguma coisa começa a perder sentido. Em 1970, um especialista em matemática conseguia cobrir menos de 10% de tudo que existia nessa área. Depois, esse número caiu para menos de 0,07%, e continua diminuindo. Isso significa que dominar completamente um campo do saber deixou de ser apenas difícil e passou a ser estruturalmente impossível, ou seja, nenhum esforço individual muda essa realidade. David Dunning, professor de psicologia da Universidade Cornell, já mostrou que as pessoas têm dificuldade de perceber os limites do próprio conhecimento. Nesse cenário, o desafio não é aprender mais dentro de uma única área, mas construir conexões entre áreas diferentes, criando mapas que liguem campos que normalmente não se falam. A pergunta que fica é: se ninguém consegue mais abraçar uma parte significativa do saber humano, como esse saber se mantém unido e é passado adiante sem se fragmentar em ilhas isoladas que não se comunicam?
A boa notícia é que entender essa ideia ajuda qualquer pessoa a viver de forma mais tranquila e inteligente. O cérebro humano foi desenvolvido em uma época muito antiga, quando quase toda informação era importante para a sobrevivência. Hoje, a maior parte do que chega aos olhos e ouvidos das pessoas não tem valor real. Por isso, a solução não é tentar eliminar tudo que é ruim — isso é impossível. O melhor caminho é aprender a ignorar o que não importa e direcionar a atenção apenas para os 10% que realmente fazem diferença. Uma dica prática é simples: se a pessoa não consegue decidir rapidamente se algo tem valor, quase certamente não tem. A habilidade mais rara não é produzir algo bom, mas saber reconhecer o que é bom em meio a tanta coisa medíocre.
Dennett também chama atenção para armadilhas comuns no raciocínio cotidiano. Por exemplo, quando alguém usa a palavra “certamente” antes de uma afirmação, geralmente está tentando fazer o outro aceitar algo como óbvio, sem questionar. Da mesma forma, perguntas retóricas parecem dúvidas, mas já carregam uma resposta escondida. Dennett ensina que reconhecer esses truques ajuda a não ser enganado por argumentos que parecem convincentes, mas escondem falhas. Ele também mostra, por meio de comparações fascinantes, como a velocidade de mudança das ferramentas humanas acelerou de forma surpreendente: o machado de pedra existiu por cerca de 1 milhão de anos sem mudanças, enquanto o mouse de computador já está sendo substituído em poucas décadas. Usando o exemplo dos cupins e da Sagrada Família, catedral de Barcelona projetada pelo arquiteto Antoni Gaudí, Dennett explica que o que torna os humanos únicos não é apenas a complexidade do que fazem, mas o fato de que planejam e criam com propósito, algo que nenhum instinto sozinho é capaz de produzir.
Daniel Dennett explica que economias e cérebros funcionam de forma parecida: ambos testam possibilidades, descartam o que não funciona e mantêm o que dá certo. Por isso, mercados precisam de liberdade, mas também de alguma fiscalização para evitar que o poder se concentre nas mãos de poucos. Sobre o livre-arbítrio, Dennett defende que ele não é algo mágico ou sobrenatural, mas sim a capacidade real que as pessoas têm de tomar decisões, aprender com elas e assumir responsabilidades. Mesmo que o universo siga leis fixas da natureza, isso não impede que as escolhas humanas sejam genuínas e importantes. O filósofo Douglas Hofstadter discorda dessa visão e acredita que um universo determinista torna o livre-arbítrio impossível, mas Dennett considera essa posição equivocada. Para ele, a consciência também não é mistério: ela é um resultado natural de processos biológicos e culturais, desenvolvida ao longo da vida por meio da linguagem, da leitura e do convívio social.
Dennett também tem uma visão prática sobre punição: para ele, punir alguém só faz sentido quando traz consequências reais e úteis para a sociedade, e as regras precisam ter peso verdadeiro para funcionar. Ele defende honestidade nesse tema, alertando que disfarçar punições com palavras como “tratamento” pode abrir espaço para abusos, como os que ocorreram no regime stalinista soviético. Além disso, Dennett argumenta que programas de computador merecem proteção legal, pois são invenções criadas com inteligência e propósito, e copiá-los sem autorização equivale a roubar algo valioso. No geral, ele acredita que aceitar explicações naturais para coisas como consciência e livre-arbítrio não diminui sua importância, pelo contrário, torna tudo mais claro e honesto. O que guia as pessoas são os valores aprendidos ao longo da vida, e é exatamente essa capacidade de raciocinar e agir com base nesses valores que torna alguém responsável por suas escolhas.
Daniel Dennett defende que a capacidade humana de pensar bem não vem de dentro do cérebro, mas de ferramentas externas aprendidas ao longo da vida. Assim como um computador precisa de programas para funcionar, a mente humana precisa de ferramentas culturais transmitidas por outras pessoas para raciocinar com clareza. Essas ferramentas mudam o que a pessoa consegue perceber e entender. Um exemplo simples: ao ler um texto, se alguém aprendeu a prestar atenção na palavra “certamente”, passa a notar quando o autor para de explicar e começa apenas a afirmar sem provar. Quem nunca aprendeu isso, simplesmente não vê. Nos livros “Intuition Pumps and Other Tools for Thinking” e “Consciousness Explained”, Dennett mostra que o que torna os seres humanos capazes de raciocinar, fazer escolhas e assumir responsabilidades não está guardado no crânio, mas nas ferramentas que outros ensinaram a usar.
Essa ideia levanta uma questão importante: se a consciência e a responsabilidade moral dependem dessas ferramentas culturais, o que acontece com quem nunca teve acesso a elas? Dennett reconhece que há limites no próprio raciocínio, admitindo incertezas e problemas sem solução fácil, mas não responde quem é responsável por garantir que essas ferramentas cheguem a todos. Afinal, se o que torna alguém capaz de pensar e responder por seus atos é algo aprendido de outras pessoas, então ambientes de privação severa ou educação falha podem deixar indivíduos sem esse recurso essencial. O mesmo padrão aparece em áreas completamente diferentes, como na biologia, na computação e na economia: sistemas simples se tornam muito mais poderosos quando incorporam módulos criados por outros. No pensamento humano, esse módulo é a cultura, e ignorar quem não tem acesso a ela é uma falha que o próprio argumento de Dennett deixa em aberto.
